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Com a morte de Silvio Santos, morre o respeito no SBT
Publicado em 12/03/2026 08:36
Notícias
Reprodução/Internet
Ratinho comete crime de transfobia ao vivo numa concessão pública

O espetáculo transfobia exibido hoje em rede nacional pelo SBT não é apenas mais um episódio constrangedor da televisão brasileira. As declarações de Ratinho, transmitidas em uma concessão pública de televisão, se somam a uma sequência de falas que já ultrapassaram há muito tempo a fronteira da “polêmica” para entrar no território da agressão aberta. Da liberdade de agressão contra minorias. O que chama atenção, no entanto, é que isso acontece justamente agora, num momento em que a ausência de Silvio Santos no comando do SBT começa a revelar, de forma dolorosamente clara, o tamanho do vazio que ele deixou.

Silvio Santos construiu sua trajetória dialogando com públicos diversos e, acima de tudo, entendendo que televisão aberta é um espaço plural. Ao longo de décadas, levou para seus programas artistas transformistas, pessoas trans, drag queens e personagens que representavam a diversidade brasileira. E fazia isso com naturalidade, sem transformar essas presenças em alvo de escárnio. O apresentador podia ser irreverente, brincalhão e até provocador, mas havia uma linha que ele nunca cruzava: a da humilhação pública de minorias.

É justamente essa linha que Ratinho parece atravessar com uma frequência cada vez maior. O que antes poderia ser interpretado como comentários infelizes passou a ser cristalinamente visto como um padrão. E quando esse tipo de discurso se repete diante das câmeras, com milhões de pessoas assistindo, ele deixa de ser apenas a opinião de um apresentador e se transforma em algo institucional e editorial de todo canal. Em outras palavras: o silêncio ou a complacência da emissora acaba funcionando como endosso e cumplicidade.

Há uma ironia amarga nisso tudo. Silvio Santos passou mais de meio século construindo uma relação de afeto com o público brasileiro, não de ódio. Um público formado por pessoas de todas as origens, crenças, identidades e orientações. Esse patrimônio simbólico foi erguido com cuidado, sensibilidade e uma percepção muito clara de que televisão popular precisa acolher, não expulsar. Ver esse legado ser corroído em tão pouco tempo por discursos que atacam justamente essa diversidade é assistir, ao vivo, a um patrimônio cultural construído por Silvio Santos sendo jogado no lixo. E talvez seja essa a parte mais triste de toda essa história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG
 
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