Offline
Anac notifica Portela e Liesa após voo de drone com homem em cima
Publicado em 17/02/2026 10:51
Notícias
Reprodução X
Apresentação levava um homem do grupo cênico para um sobrevoo de 40 segundos sobre um tripé alegórico

Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) notificou a Portela e a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) após a agremiação colocar um membro da comissão de frente “voando” num drone. A performance aconteceu na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, neste domingo (15), no primeiro dia de desfiles do Grupo Especial.

A apresentação da escola de Oswaldo Cruz, bairro da zona norte carioca, levava um homem do grupo cênico para um sobrevoo de 40 segundos sobre um tripé alegórico e os outros bailarinos. Quatro apresentações usaram o “superdrone” ao longo do desfile no sambódromo.

Anac cobra esclarecimentos da escola

A Anac ressaltou em nota que é proibido transportar pessoas, animais e artigos perigosos usando drones.

“O equipamento não foi desenvolvido para essa finalidade e pode causar acidentes, inclusive fatais”, destacou.

A agência solicitou que a escola informe detalhes do aparelho, como modelo, número de série, comprovação de registro junto à Anac e informações de quem pilotou remotamente a aeronave. A Portela terá dez dias para responder à notificação.

A Anac esclareceu ainda que, a operação de drones no Brasil é regida pelo Regulamento Brasileiro de Aviação Civil 94 (a norma técnica RBAC-E nº 94), que proíbe que esses veículos sejam tripulados. A regulação prevê, ainda, que "o piloto não pode, em hipótese alguma, colocar vidas em risco", além de precisar manter uma distância mínima de 30 metros horizontais do drone para estruturas que possam ser atingidas.

Conceito teatral da apresentação

O componente que sobrevoou a Sapucaí com o drone da Portela dava vida ao Negrinho do Pastoreio, figura central de uma das lendas mais conhecidas do folclore gaúcho, simbolizando sua libertação durante o “voo encantado”. Neste ano, a escola levou para a avenida um enredo dedicado à presença negra no Rio Grande do Sul e a importantes símbolos de resistência no estado, como o líder religioso do candomblé Príncipe Custódio, pai-de-santo de grande destaque em Porto Alegre.

O equipamento não foi desenvolvido para essa finalidade e pode causar acidentes
Reprodução Instagram
O equipamento não foi desenvolvido para essa finalidade e pode causar acidentes

Para desenvolver a narrativa, a agremiação recorreu a personagens marcantes, como o próprio Negrinho do Pastoreio e o orixá Bará. A libertação encenada no sobrevoo dialoga com a tradição popular do Sul. Segundo a lenda, um menino negro escravizado era responsável por cuidar dos cavalos de uma fazenda. Quando um deles desaparece, ele é injustamente acusado e submetido a severos castigos, sendo abandonado sobre um formigueiro — imagem que também foi representada na comissão de frente.

Portela
Fagner Vilela/iG
Portela

De acordo com a história, o menino sobrevive e reaparece curado, ao lado da Virgem Maria, no momento em que o cavalo retorna. Em seguida, desaparece e passa a ser considerado uma entidade encantada. No imaginário gaúcho, é invocado para ajudar a encontrar objetos perdidos, função semelhante à atribuída a São Longuinho na tradição católica. Ao trazer essa figura para o desfile, a Portela propôs não apenas libertá-lo desse “ofício eterno”, mas também evidenciar as violências sofridas pela população negra durante a escravidão no Sul do país.

Comentários